sexta-feira, março 04, 2022

"A MINHA EVACUAÇÃO PARA O HOSPITAL DE VILA CABRAL" MÊS DE SETEMBRO DE 1973 :


Não sei como é hoje. Naquele tempo, alimentar tropas era uma tarefa complicada. A verba era escassa, a janta nunca estava ao gosto de todos a variedade não variava, não abundava, a imaginação dos cozinheiros escasseava e a falta de jeito da grande maioria agravava tudo. Eram homens formados à pressa, escolhidos com base em critérios que nunca cheguei a perceber. Creio que poucos deles alguma vez tivessem ido além de estrelar um ovo. A verdade é que a tropa transformava pedreiros, carpinteiros, jardineiros e afins em cozinheiros temporários que, após cumprido o serviço militar, voltavam às suas atividades iniciais. Se transportar tudo isto para a realidade, no Lunho as coisas  pioravam. A cozinha não ajudava, o combustível era a lenha colhida na mata, os tachos eram negros e grandes, e o calor tomava a tarefa do cozinheiro e seus auxiliares, um martírio. Agravar tudo isto, os ingredientes escasseavam, a ração era parca e nem ingredientes haviam para confecionar uma sopa dita. Na verdade a variedade do rancho, oscilava entre massa com carne, e a carne com massa substituída de tempos, em tempos por feijões. Bifes, nem velos e o peixe era indesejado. de vez em quando, lá vinham umas salsichas, uma feijoada com uma ou outra rodela de chouriço barato, umas ervilhas enlatadas e pouco mais. Ah! havia ainda a dobradinha. O ingrediente chegava seco desidratado, em forma de pequenos pedaços parecidos com flocos que inchavam quando posto de molho. Dobradinha com feijão, amamentada com uma colherada de arroz, era assim um dos petiscos que primita desenjoar da massa, mas que não nos livrava dos feijões, que engrossavam o molho com aspeto amarelado, de cola liquida condimentada com chouriço, estrategicamente misturado para dar gosto e onde os mais gulosos ensopavam o pão. Exigir dotes de prestigiado, tanto mais que os ingredientes não estavam disponíveis. No Lunho não havia nem de perto nem de longe, uma  tosca  tasca ambulante improvisada,   a não ser uma pequena cantina, dentro do aquartelamento. O cantineiro (ROCHA) que se encontrava atrás do balcão, vendia  as bebidas com carimbo   de isenção, mas eu pagava  a preço corrente. A cantina era explorada  pelo   nosso 1.º Sargento Bizarro, que vendia o tabaco, a cerveja, outras bebidas,  e pouco mais. O reabastecimento era feito por coluna, os frescos eram transportados por um pequeno avião que nos visitava duas vezes por semana. O vinho era de péssima qualidade. A alimentação no Lunho era muito pobre, talvez foi a razão que eu tive de baixar à enfermaria com o paludismo misturado com fraqueza, o meu estado se agravava cada dia que passava deixei a minha cama, fui transferido para uma outra. O enfermeiro de serviço Valadares Pereira, ao ver a minha situação, fez o pedido à messe dos oficiais a sopa, mesmo assim o meu estado de saúde piorava quarenta e dois de febre, já sentia dificuldades em respirar, apareceu na enfermaria o furriel enfermeiro, ao ver o meu estado de saúde, comunicou para Vila Cabral, no dia seguinte ao amanhecer, já se encontrava um pequeno avião, aterrar na pista afim de ser feita a minha evacuação, para o hospital do Setor "A". Fui conduzido numa auto maca, até ao avião, em pouco tempo eu já sentia um ar, um pouco fresco pois estava aterrar no aeroporto, já se encontrava uma ambulância, estacionada à minha espera para me conduzir à urgência. Fui atendido por um médico, Tenente Coronel que de imediato chamou um dos enfermeiros de serviço, me injetou um litro de soro. O médico disse ao enfermeiro que eu estava pronto para o caixote, fiquei com baixa hospitalar dezassete dias levei na totalidade dezassete litros de soro. Foi assim que naquela unidade hospitalar, que eu sentia os helicópteros da força aérea, resfolegante transportando soldados feridos e outros moribundos do campo da batalha. O médico caminhou com os seus elementos de enfermagem até à minha cama, examinou-me e disse que eu já me encontrava, em boa saúde para regressar, ao meu aquartelamento. Ordens do senhor doutor, levantei-me da cama, com um certo agastamento vesti a minha farda, sem mais delongas não disse nada medi a minha estrutura de cima a baixo, de forma quase impercetível, abandonei o hospital, segui para o interior do aquartelamento de Vila Cabral, esperando a saída de uma coluna militar, para me levar de regresso ao inferno do Lunho.
Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72.                                 

quarta-feira, março 02, 2022

Chegada da Companhia de Artilharia 72 60 ao LUNHO 20 de março 1974:

O 1.º Cabo Clarim João Pinto funcionário do depósito de géneros do Lunho acompanhado pelo seu Comandante de Companhia Capitão Mil.º Salavisa que renderam a C.Caç.41 41 os Gaviões no dia 20 de Março de 1974:





 Aquele inesquecível, dia 19 do  mês de Março de 1974: todos nós madrugamos, se calhar não dormimos, convenientemente e, mal despontou o sol, que no Lunho nascia bem cedo, fomos saindo da caserna com a certeza mais que certa, de que a fuga daquele purgatório estava por dias. Nunca por então tantas sentinelas, mirando a picada. todos olhávamos para o horizonte, com impaciência, perscrutando a celeste direção, que sabíamos ser aquela de onde surgiria uma coluna de viaturas, carregando aqueles, que tomariam de então os nossos lugares naquela terra esquecidas do fim do mundo. Foi uma longa espera, que a impaciência se encarregou, de prolongar ainda mais. Ansiedade foi crescendo à medida que o tempo passava e a coluna tardava. Para o grande momento, até que soou o primeiro alarme. O ponto negro, já visível no horizonte, foi agradecendo à medida,  até se tornar bem nítida a silhueta familiar da coluna que chegou no meio de uma nuvem de pó, evoluindo até se imobilizar, no aquartelamento do Lunho. Um burburinho expectante, fazia descer aqueles checas acabados de chegar, das viaturas, uma gritaria esfusiante, tomou ao mesmo tempo que cada um se esforçava, por parecer, o mais alucinado possível num misto  de loucura e contentamento.  alguns com ar mais infeliz do mundo, olhando em volta sem saber para onde se dirigir, iam sendo guiados quase empurrados, bombardeados por explicações atabalhoadas vindas de todo o lado. toda a gente ia contando, indicando, descrevendo, pintando, o que era as matas do Lunho onde ficava a Miandica, e as tarefas mais difíceis que iam ter de enfrentar.

Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72:        

terça-feira, março 01, 2022

Enfermaria do LUNHO:
















1.º Cabo Enfermeiro

Valadares Pereira:
                 Enfermaria do Lunho:                              1972 a 1974:
Nesta enfermaria, qualquer foco de infeção, e pequenas feridas de um dia para o outro, qualquer erupção cutânea, e o pó de talco antimicótico, aplicado nas dobras da pele fazia desaparecer as comichões, e irritações, que a humidade sudorifica agravava. A medicina preventiva era a preocupação do furriel enfermeiro. todos os dias ao almoço o enfermeiro de serviço, dispunha junto ao prato de cada um, dois ou três comprimidos: O vermelhinho, que visava compensar as insuficiências vitaminas, e minerais da alimentação, pobre e sem sabor; o comprimido branquinho, que continha a imprescindível, resoquina contra o paludismo; e mais um outro que não me lembro para quê? até havia a dose cavalar, de Vitamina era injetável, que se dizia fornecer tudo, o que o organismo, precisava. Pelo menos o Palúdico, na sua permanente mania das doenças e fraquezas, era cliente assíduo. Mas a verdade seja dita,  a grande preocupação do nosso escasso e improvisado corpo clinico centrava-se no combate ao paludismo  e à terrível doença do sono. A luta contra o paludismo, era diária através de medicação preventiva. Só em caso de contágio, quando a febre subia aos quarenta graus, se justificava a via endovenosa com a injeção de doses cavalares, de resoquina. Já a doença do sono exigia a inoculação periódica de uma vacina que era pressuposto, imunizar-nos contra uma ameaça invisível. Por mim e creio que para quase todos, mais picadela menos picadela, já não fazia diferença. Há muito que estávamos habituados, a essa rotina tanto mais que se preferia isso , ao desconforto e à perigosidade da doença. Fazia-me me ver, estando assim seria mais doloroso, para além de transformar uma simples picada em algo complexo. O enfermeiro Valadares Pereira perdeu a compostura: Acalma-te lá porra! pensa em gajas! disse brincando , baixei os meus calções, estiquei-me num banco corrido, mal senti o contacto frio do algodão que desinfetava a zona, preparou a agulha como de costume, separada da seringa, e num movimento brusco, procurando aliviar o meu tormento, deu-me uma pequena palmada na nádega nua, conseguiu  esperando conseguir, num golpe violento espetou a agulha, como uma estocada em um touro bravo. Encaixou a seringa e começou a empurrar o liquido obrigando a penetrar, naquela fortaleza de músculos. levantei a cabeça, cerrei os dentes, num verdadeiro esgar de dor, aguentei até ao fim, porra gostas de sofrer? Desabafou o enfermeiro, finalmente sacou a agulha, num gesto brusco ao mesmo tempo esfregava o algodão, emudecido na nádega repentinamente descontraída. Não percebes que assim é que dói mesmo? Mas eu não queria saber disso. Levantei-me puxei os calções, e enquanto afivelava o cinto, balbuciei num suspiro  diz o enfermeiro pronto já está, afastei-me a coxear, esfregando o rabo, à procura de alivio para o ardor que sentia.

Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72. 

sábado, fevereiro 26, 2022

Capela dos Bidões do Lunho Moçambique




 

Miandica terra do outro mundo 1973:



 




Numa guerra de guerrilha, como aquela que Portugal enfrentou, em terras de Moçambique, qualquer força de intervenção se tornava extremamente, vulnerável, sempre que tinha de executar os seus movimentos hábitos, e procedimentos. Era esta a situação e perante este perigo, que se encontrava a Companhia de Caçadores 41 41 os Gaviões, estacionada no buraco mais famoso do Niassa, o buraco do "LUNHO". Ao ter que realizar, diariamente ao inicio da manhã, e ao fim da tarde um percurso de 20 e tal quilómetros, entre o Lunho e a Miandica para reabastecer a 2.ª Companhia de Engenharia que se encontrava a fazer a terraplanagem, para construção de um aquartelamento, a fim de ser colocada lá uma companhia, de militares. As nossas viaturas, ficavam perigosamente expostas às investidas dos guerrilheiros da Frelimo, tanto pela forma de emboscadas, como possíveis minas colocadas na picada. 

Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72.   


 


                                  Estação ferroviária de Nova Freixo Moçambique 1972.
Nesta estação dos caminhos-de-ferro embarquei, num comboio que se movimentava a carvão, se encontrava lotado por homens, mulheres, e crianças de raça negra. Embarquei na carruagem da frente, junto à locomotiva, à frente seguia o rebente minas, e com vários soldados a fazer a proteção. Iam sempre aos tiros de G3, eu era checa não habituado a estas andanças,  no percurso da viagem ia observando várias carruagens, tombadas nas ravinas causado pelo arrebentar das minas ali colocadas na via férrea pelos guerrilheiros da Frelimo para impedir a passagem da tropa da Metrópole para os destinos que lhe foram indicados. Segui um dia de comboio para percorrer os sete centos e tal quilómetros, de via-férrea até Vila Cabral, conhecida na gíria da tropa por
"CIDADE DE MINAS  GERAIS"  
Texto de Bernardino Peixoto  Sodado Corneteiro 017516/72.                                                                                     

sexta-feira, fevereiro 25, 2022




 Aqui está o nosso «1.º Cabo Cripto» José Xavier com o saco do correio»
Já que mais uma vez fiz referência, à importância da chegada do correio, ao Lunho. Aqueles dois dias na semana, que o pequeno avião que os velhinhos o batizaram pelo nome de "Pêga" aterrava na pista dos Castelões do Lunho para deixar um saco de cartas, e aerogramas carregados de noticias de casa, traziam mais alento ao pessoal do que uma bela refeição de bife com batatas fritas. Era espécie de religião, um desejo incontido, um vicio irresistível autêntica dependência saudável. fazendo com que os outros dias, fossem meras etapas de um caminho, que desaguava em cada terça feira, e se repetia com que os outros dias à sexta feira, seguindo-se um longo interregno com um fim de semana, pelo meio sábados e domingos, que ali no Lunho  não eram diferentes de qualquer outro dia da semana. Desde que não fosse dia de correio, eram todos iguais. De facto, verdadeiramente especial, o nosso dia Santo  era mesmo o dia em que recebia noticias.     

Todos nós ansiosos, procurando adivinhar, pelo volume do saco, a quantidade de cartas e aerogramas que trazia. O saco era entregue na pista de aviação, tirado do avião e entregue ao nosso cabo Cripto José Xavier, era escoltado no seu percurso até às transmissões, como uma preciosa relíquia se trata-se. Todos lhe queriam tocar! O nosso improvisado  carteiro António Brites, se colocava em cima de um dos bidons, eu seguindo com os olhos ávidos, no maço de cartas e aerogramas, anunciando os nomes inscritos em cada carta, e aerograma. Quando era para mim eu respondia: Eu eu. Respondia como se tivesse ganho a lotaria. O  Brites continuava com o pregão  e insinuava; hoje não lerpas! recebia correio mais importante da minha namorada, e das madrinhas de guerra. Nunca recebi correio dos meus familiares, eu também não perdia o meu tempo a escrever. O importante como as coisas, verdadeiramente importantes isso era o que acontecia com todos, desde o oficial sim porque a Companhia de Caçadores 41 41  os Gaviões havia uns quantos analfabetos. E, recorrendo ou não ao companheiro do lado, todos se dedicavam à leitura, devorando sofregamente cartas que narravam acontecimentos, e transmitiam sentimentos, simples discorrências para encher a folha de papel, pura descrição de assuntos a que só a distância conferia o significado. Mas havia um que não encaixava em tudo isto. Um soldado que, tanto quanto me lembro, nunca recebera uma simples carta, ou um aerograma. não sei a razão? dizia que apenas tinha sua mãe e um irmão, vá-se lá saber porquê, O Manuel Almeida conhecido pelo (Cantiflas) era um soldado estranho, um chato, isso via-se no dia-a-dia. Parecia não ter jeito, para fazer amigos e, talvez por isso costumava a andar só. Não porque  quisesse, mas porque alguns o enxotavam. Quando se nos dirigia, exibia um sorriso sarcástico, parecendo querer provocar irritação. Se calhar era apenas um esgar que não controlava. Um fácil aparvalhado e ainda por cima era um refilão, defeito que procurava disfarçar, com bajulice, servilismo encapotado num trejeito untuoso. O seu aspeto fisico também não ajudava. A verdade é que ninguém se lembra de alguma vez ter recebido correio uma carta da mãe ou de um amigo conhecido. Olha lá a tua mãe já te escreveu? ou tu é que não sabes ler? O Cantiflas atalhou de forma provocatória, respondia com evasivas, como se o assunto o incomoda-se. Bem os pormenores não interessam, nem os sei reproduzir. Isto pode explicar a pouca popularidade, entre a malta não era apenas falta de jeito, para arranjar amigos parece que não seria, lá muito popular para os seus familiares, de quem aliás nunca falava. 

Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72.                            

COMPANHIA DE CAÇADORES 41 41 OS GAVIÕES A CAMINHO DO LUNHO:



As viaturas avançavam seguindo a picada de Metangula, fazendo uma pausa em Nova Coimbra, cujo os sulcos, ia sendo francamente iluminados pelo foco do sol, que a irregularidade da picada, que se fixa-se num ponto. Perscrutava-se o negro envolvente na tentativa de adivinhar, os contornos da mata, escondida no denso e impenetrável, manto preto como quem não quer a coisa, quase sem se dar por isso. As viaturas abandonaram Nova Coimbra, entraram na picada com destino ao Lunho, aos poucos foi denunciando um pó fininho que despertava com o rolar dos pneus, se levantava em remoinhos que iam cobrindo o ar circulante, de uma palha difusa misturada, com restos de folhagem seca, esvoaçando cobrindo desordenadamente, acabava de poisar hesitante até a viatura seguinte voltar tudo num reboliço irritante, que incomodava quem se lhe seguia. aquela mata era de facto diferente. Isso  determinou que a picada que seguíamos, fosse irritantemente sinuosa, talvez em demasia. E para piorar as coisas, as raízes à superfície, constituíam obstáculos que obrigavam as viaturas a um permanente escoucinhar, a uma dança frenética, um constante balanceio entremeado de saltos e ressaltos que iam massajando os corpos do pessoal que procurava a todo custo manter o equilíbrio, sobre a carroçaria desconfortável, de viaturas impróprias para o transporte de gente. E tudo isto retardava o andamento, deixando aquela conhecida sensação de passeio, de tartaruga de conferir até chegar ao inferno do Lunho. 

Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72           
 

quinta-feira, fevereiro 24, 2022

Eu Bernardino Peixoto fui preso num subterrâneo no Lunho Moçambique.



No Lunho fui preso num subterrâneo de um posto de sentinela: 

O rigoroso regulamento da disciplina militar, de que se dizia ser incomparável alimentava  boa  parte do anedotário, de caserna. Entenda-se seria de todo desnecessário e isso porque, bastaria entender as regras principais, cuidado com o que dizes" vê lá o que fazes" o que significava, que até isso porque para não cair nas suas malhas. Naquele tempo, dormir era razoável a probabilidade de se infringir um qualquer dos seus inúmeros, artigos. No Lunho não havia cadeia, as penas de prisão eram compridas, no fundo de um subterrâneo tenho memória de ter sido enclausurado, cujo o meu Comandante de Companhia António Cardoso, exigente e imperativo não admitia desculpas. o local escolhido ter sido logo ali naquele subterrâneo onde um animal de quatro patas acabava de dar à luz onze cachorros, fui preso sem camisa, foi-me retirada a minha arma, meus cinturões, enfim o cubículo era bastante apertado, que tive de tentar dormir uma soneca em condições desumanas. Um refilão preguiçoso, um negro de nome Agostinho, exagerou pois se encontrava embriagado, ultrapassou o desculpável e foi além da capacidade, de tolerância aplicada ainda com algumas atenuantes, infernizou a minha paciência, eu já me encontrava visivelmente agastado, com os palavrões, saquei do meu cinturão, o atingi numa das suas orelhas, de imediato foi socorrido pelos seus camaradas, até à enfermaria. O meu Comandante acompanhado pelo segundo, Aníbal Curto Ribeiro, e o furriel Afonso em pouco tempo entravam na caserna, ao ver a situação me deu voz de prisão, fui conduzido ao subterrâneo, pelo furriel Afonso que lamentou o procedimento do meu comandante.  Estar preso implicou não ser escalado, para o respetivo posto de sentinela. Eu achando que tudo aquilo foi um abuso de poder  visivelmente fiquei agastado, com o suposto castigo. para completar o quadro!!..O negro transferia-se à noite para a sua cama, na caserna, depois de ter alta da enfermaria!!!. Feliz da vida e apostado de ter cumprido o castigo, dentro do subterrâneo que me foi imposto. Creio que nunca fiz inimigos, mas também não consigo identificar os amigos, o Agostinho era um negro quezilento, quando se encontrava com umas cervejas a mais, situação algo frequente,  a cerveja era barata, e havia quantidades generosas, que apenas se manifestava, quando toldado, por cervejas um pouco em quantidade. Claro que nestas coisas, à sempre exceções. A bebida queimando o seu fraco senso, fazia às avessas daí o resultado, de ameaças, o único que sofreu na pele fui eu. O castigo da providência senti de forma dolorosa.

Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72                         
 

terça-feira, fevereiro 22, 2022



A MINHA VIAGEM PARA A GUERRA DO ULTRAMAR:
Acabadas as seis semanas, do IAO!! no Regimento de Infantaria n.º1 na Amadora, e depois de um curto período de férias de "despedida" eramos mais de cem homens, que compunham a Companhia de Caçadores 41 41 os Gaviões, considerados prontos como carne  para canhão, para o teatro de guerra, em Moçambique!..  Esta era a primeira etapa da minha viagem, numa tarde de 12 de novembro de 1972 terminou junto ao aeroporto de Lisboa foi uma das mais angustiantes, de que me recordo, em toda a minha vida, e julgo não só para mim, como para todos nós, pois era a primeira prova concreta, de ser verdade aquilo que me esperava: A Guerra! O "NIASSA",  "O LUNHO"O avião dos TAM Boeing707 preparado na pista, pronto a voar para Moçambique, até fazer a escala para o seu reabastecimento, em Luanda.  Não retenho grandes lembranças, sobre Luanda!!! quando o Boeing, já sobrevoava, nas alturas nos apercebemos, que estávamos em território Moçambicano. Corria aquele mês novembro de 1972, e o calor fazia-se sentir em toda a sua pujança. Um ar quente saturado de pó, como uma bofetada de boas vindas, quando abandonamos a barriga da aeronave. Segui maquinalmente com os meus camaradas, olhando em redor como que anestesiado, pela  desolação envolvente sem me dar, conta pelo menos no imediato, de que aquele exíguo espaço perdido. No dia 19 de Novembro de 1972 acabávamos de chegar a um local onde a mata, numa sucessão infinitesimal,  de coisa nenhuma. para lá do limite do arame farpado, se encontrava aquele aglomerado bairro de latas, construído em chapas de zinco e outras em artesanal em blocos, e tijolos. O conforto  provocado pelo calor intenso simplesmente institui que o nome do local que nos havia saído em sorte mas sem qualquer informação, do que me esperava o Lunho  é verdade que tomei a consciência de que estava num local,  onde não havia rede elétrica publica. Por ali não havia eletricidade permanente, um gerador que só funcionava nas escassas três a quatro horas quando a noite caía, isso não seria suficiente para alimentar as arcas congeladoras, eram alimentadas a petróleo. Fomos recebidos pelos velhinhos, era sempre servida como praxe, de boas vindas como checas. Velhinhos esses que ali habitavam, à bastantes meses, tempo suficiente para serem rendidos, depois de fazerem a entrega do local, a Companhia de Caçadores 33 92, seguiram marcha para outro local, nós ficamos perdidos, no meio daquele capim, naquele  ermo, sem viva alma em seu redor, bem conhecido do Niassa o buraco do « LUNHO» 
(CIDADE DE MINAS GERAIS

Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72          
 

 MADRINHAS DE GUERRA:

As madrinhas de «guerra» eram moças solteiras sendo muitas vezes os respetivos endereços, trocados por nós militares. Muitas vezes as pessoas, escreviam sem se conhecer pessoalmente mas alguns desses casos, resultaram em casamento. Ao fim de algumas cartas e aerogramas trocados, as madrinhas" enviavam  fotos de corpo inteiro, para mostrarem o que valiam, vestiam a sua melhor roupa faziam a sua melhor pose  para se mostrarem. Os "aerogramas" disponibilizados pelo Movimento Nacional Feminino, não precisava de selo  era transportado gratuitamente, pelos aviões da TAP. O saco do correio, era transportado para o Niassa, e depois para o Lunho, duas vezes por semana, num pequeno avião que os velhinhos batizaram com o nome de "Pêga" Sempre no momento da distribuição do correio, aguardado  com particularidade por todos nós, guerreiros!. Eu tinha umas cinco ou seis "madrinhas" recebia uns vinte aerogramas por mês, com algumas cartas à mistura. De que eu falava? falava de tudo era uma espécie de eu despejar o caixote. Falava de ser um herói, falava de solidão, falava de medo, e falava de malandrices.

Crónica de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72:    

O Adeus ao Lunho 23 de março de 1974

segunda-feira, fevereiro 21, 2022

Esposas Namoradas e Madrinhas de Guerra

 

Marta Martins Silva escritora e autora deste livro cartas de Amor e de Dor, Esta simpática senhora como jornalista e escritora, resolveu escrever as nossas histórias dos antigos combatentes do Ultramar, muitos lhe enviaram seus textos, subscritos a esta senhora fazer a revisão dos mesmos. Os antigos combatentes da guerra do Ultramar, em forma de um diário pessoal onde as nossas escritas delirantes, prometem desafiar os leitores, a descobrir qual a realidade do mundo, em que nós vivemos e como foi o desenvolvimento das nossas experiências traumáticas, em terras de África quando ainda eramos muito jovens. Parabéns senhora jornalista e escritora, Marta Martins da Silva todos nós combatentes da guerra do Ultramar, lhe agradecemos de colocar cá fora as nossas histórias que já se encontravam guardadas no baú das recordações. o que foi o nosso sofrimento em tempos de guerra em plena juventude.       

sábado, fevereiro 19, 2022

                                    Bernardino Peixoto soldado corneteiro 017516/72:
 

quinta-feira, fevereiro 17, 2022

COMPANHIA DE CAÇADORES 41 41 OS GAVIÕES:

Comandante da Companhia de Caçadores 41 41 os Gaviões
António Cardoso Capitão Mil.º de  Art.ª
Memórias de uma companhia independente C.Caç 41 41 os Gaviões que em 19 Novembro de 1972 foram largados num ermo em algures no Niassa «LUNHO« terras do fim do mundo nos confins de Moçambique. Alongava-se o tempo no Lunho e quanto se prolongava, o tempo, a marcha dos dias, não obstante a irritante constância dos ponteiros dos relógios. Quando fomos largados neste minúsculo recanto das inóspitas terras-do-fim-do-mundo, dizia-se que dentro de um ano, mais coisa menos coisa, seriamos transferidos para um lugar mais aprazível, já parecia difícil aceitar a possibilidade de um ser humano viver muito tempo em local tão desolado. Afinal não foi bem assim, viemos a saber mais tarde, termos penado dezassete longos meses, aguardando ansiosamente que nos viessem render. Ainda me lembro da minha alegria esfuziante daquela rapaziada, da Companhia de Artilharia 7260 que no dia vinte de Março de 1974 quando os vi chegar, fiquei atordoado perante o inesperado que teve o seu epilogo, derradeira etapa. Foram largados ali  desamparados, sem consciência do que lhes esperava e sem qualquer noção, do que os rodeava. A paisagem à volta, pelo menos num primeiro relance, mostravam-se assustadoramente a selva numa estranha simbiose, com a desolação das instalações, que plantadas no meio daquele, deserto compunham o aquartelamento militar, que a partir de então, lhes havia de servir de morada. Três dias depois eu abandonei aquele local, despedi-me deste bairro de latas, viajamos à torreira do sol, até uma pequena e linda cidade de Malema-Entre os Rios ali  passei à peluda no dia 30 de setembro de 1974.

Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72.         



sexta-feira, janeiro 21, 2022


Aqui nesta Unidade, confesso que cresci bastante como homem, nos dois meses que durou a instrução básica. Deixei de ter apoio diário dos pais, e dos irmãos, do patrão e dos amigos, para ter de fazer e decidir as tarefas que me competiam. Aprendi a fazer a cama, a conchegar a roupa que em cada semana, levava preparada de casa, após de ser lavada e passada a ferro pela minha mãe. Aprendi  a pegar numa arma de fogo, e como manejá-la e a distinguir os vários modelos.....espingarda ligeira, pistola, ou metralhadora, ou ainda diferenciar uma granada ofensiva de uma defensiva, e o que cada uma provoca quando utilizadas.
Aprendi a saltar ao galho, ou a vala, a fazer uma queda facial, e rastejar, dar uma cambalhota à retaguarda e ainda as tais flexões, que era diariamente castigado por alguma incorreção e que os instrutores em face disso me obrigavam a fazer. Depois de eu jurar bandeira fui colocado no regimento de infantaria n.º2 em Abrantes para a aprendizagem da especialidade de corneteiro que me foi atribuído  após de ter feito um exame psicotécnico que serviu de prova à minha capacidade do meu desempenho. 

Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72
 

Daniel Roxo