Não sei como é hoje. Naquele tempo, alimentar tropas era uma tarefa complicada. A verba era escassa, a janta nunca estava ao gosto de todos a variedade não variava, não abundava, a imaginação dos cozinheiros escasseava e a falta de jeito da grande maioria agravava tudo. Eram homens formados à pressa, escolhidos com base em critérios que nunca cheguei a perceber. Creio que poucos deles alguma vez tivessem ido além de estrelar um ovo. A verdade é que a tropa transformava pedreiros, carpinteiros, jardineiros e afins em cozinheiros temporários que, após cumprido o serviço militar, voltavam às suas atividades iniciais. Se transportar tudo isto para a realidade, no Lunho as coisas pioravam. A cozinha não ajudava, o combustível era a lenha colhida na mata, os tachos eram negros e grandes, e o calor tomava a tarefa do cozinheiro e seus auxiliares, um martírio. Agravar tudo isto, os ingredientes escasseavam, a ração era parca e nem ingredientes haviam para confecionar uma sopa dita. Na verdade a variedade do rancho, oscilava entre massa com carne, e a carne com massa substituída de tempos, em tempos por feijões. Bifes, nem velos e o peixe era indesejado. de vez em quando, lá vinham umas salsichas, uma feijoada com uma ou outra rodela de chouriço barato, umas ervilhas enlatadas e pouco mais. Ah! havia ainda a dobradinha. O ingrediente chegava seco desidratado, em forma de pequenos pedaços parecidos com flocos que inchavam quando posto de molho. Dobradinha com feijão, amamentada com uma colherada de arroz, era assim um dos petiscos que primita desenjoar da massa, mas que não nos livrava dos feijões, que engrossavam o molho com aspeto amarelado, de cola liquida condimentada com chouriço, estrategicamente misturado para dar gosto e onde os mais gulosos ensopavam o pão. Exigir dotes de prestigiado, tanto mais que os ingredientes não estavam disponíveis. No Lunho não havia nem de perto nem de longe, uma tosca tasca ambulante improvisada, a não ser uma pequena cantina, dentro do aquartelamento. O cantineiro (ROCHA) que se encontrava atrás do balcão, vendia as bebidas com carimbo de isenção, mas eu pagava a preço corrente. A cantina era explorada pelo nosso 1.º Sargento Bizarro, que vendia o tabaco, a cerveja, outras bebidas, e pouco mais. O reabastecimento era feito por coluna, os frescos eram transportados por um pequeno avião que nos visitava duas vezes por semana. O vinho era de péssima qualidade. A alimentação no Lunho era muito pobre, talvez foi a razão que eu tive de baixar à enfermaria com o paludismo misturado com fraqueza, o meu estado se agravava cada dia que passava deixei a minha cama, fui transferido para uma outra. O enfermeiro de serviço Valadares Pereira, ao ver a minha situação, fez o pedido à messe dos oficiais a sopa, mesmo assim o meu estado de saúde piorava quarenta e dois de febre, já sentia dificuldades em respirar, apareceu na enfermaria o furriel enfermeiro, ao ver o meu estado de saúde, comunicou para Vila Cabral, no dia seguinte ao amanhecer, já se encontrava um pequeno avião, aterrar na pista afim de ser feita a minha evacuação, para o hospital do Setor "A". Fui conduzido numa auto maca, até ao avião, em pouco tempo eu já sentia um ar, um pouco fresco pois estava aterrar no aeroporto, já se encontrava uma ambulância, estacionada à minha espera para me conduzir à urgência. Fui atendido por um médico, Tenente Coronel que de imediato chamou um dos enfermeiros de serviço, me injetou um litro de soro. O médico disse ao enfermeiro que eu estava pronto para o caixote, fiquei com baixa hospitalar dezassete dias levei na totalidade dezassete litros de soro. Foi assim que naquela unidade hospitalar, que eu sentia os helicópteros da força aérea, resfolegante transportando soldados feridos e outros moribundos do campo da batalha. O médico caminhou com os seus elementos de enfermagem até à minha cama, examinou-me e disse que eu já me encontrava, em boa saúde para regressar, ao meu aquartelamento. Ordens do senhor doutor, levantei-me da cama, com um certo agastamento vesti a minha farda, sem mais delongas não disse nada medi a minha estrutura de cima a baixo, de forma quase impercetível, abandonei o hospital, segui para o interior do aquartelamento de Vila Cabral, esperando a saída de uma coluna militar, para me levar de regresso ao inferno do Lunho.
sexta-feira, março 04, 2022
"A MINHA EVACUAÇÃO PARA O HOSPITAL DE VILA CABRAL" MÊS DE SETEMBRO DE 1973 :
Não sei como é hoje. Naquele tempo, alimentar tropas era uma tarefa complicada. A verba era escassa, a janta nunca estava ao gosto de todos a variedade não variava, não abundava, a imaginação dos cozinheiros escasseava e a falta de jeito da grande maioria agravava tudo. Eram homens formados à pressa, escolhidos com base em critérios que nunca cheguei a perceber. Creio que poucos deles alguma vez tivessem ido além de estrelar um ovo. A verdade é que a tropa transformava pedreiros, carpinteiros, jardineiros e afins em cozinheiros temporários que, após cumprido o serviço militar, voltavam às suas atividades iniciais. Se transportar tudo isto para a realidade, no Lunho as coisas pioravam. A cozinha não ajudava, o combustível era a lenha colhida na mata, os tachos eram negros e grandes, e o calor tomava a tarefa do cozinheiro e seus auxiliares, um martírio. Agravar tudo isto, os ingredientes escasseavam, a ração era parca e nem ingredientes haviam para confecionar uma sopa dita. Na verdade a variedade do rancho, oscilava entre massa com carne, e a carne com massa substituída de tempos, em tempos por feijões. Bifes, nem velos e o peixe era indesejado. de vez em quando, lá vinham umas salsichas, uma feijoada com uma ou outra rodela de chouriço barato, umas ervilhas enlatadas e pouco mais. Ah! havia ainda a dobradinha. O ingrediente chegava seco desidratado, em forma de pequenos pedaços parecidos com flocos que inchavam quando posto de molho. Dobradinha com feijão, amamentada com uma colherada de arroz, era assim um dos petiscos que primita desenjoar da massa, mas que não nos livrava dos feijões, que engrossavam o molho com aspeto amarelado, de cola liquida condimentada com chouriço, estrategicamente misturado para dar gosto e onde os mais gulosos ensopavam o pão. Exigir dotes de prestigiado, tanto mais que os ingredientes não estavam disponíveis. No Lunho não havia nem de perto nem de longe, uma tosca tasca ambulante improvisada, a não ser uma pequena cantina, dentro do aquartelamento. O cantineiro (ROCHA) que se encontrava atrás do balcão, vendia as bebidas com carimbo de isenção, mas eu pagava a preço corrente. A cantina era explorada pelo nosso 1.º Sargento Bizarro, que vendia o tabaco, a cerveja, outras bebidas, e pouco mais. O reabastecimento era feito por coluna, os frescos eram transportados por um pequeno avião que nos visitava duas vezes por semana. O vinho era de péssima qualidade. A alimentação no Lunho era muito pobre, talvez foi a razão que eu tive de baixar à enfermaria com o paludismo misturado com fraqueza, o meu estado se agravava cada dia que passava deixei a minha cama, fui transferido para uma outra. O enfermeiro de serviço Valadares Pereira, ao ver a minha situação, fez o pedido à messe dos oficiais a sopa, mesmo assim o meu estado de saúde piorava quarenta e dois de febre, já sentia dificuldades em respirar, apareceu na enfermaria o furriel enfermeiro, ao ver o meu estado de saúde, comunicou para Vila Cabral, no dia seguinte ao amanhecer, já se encontrava um pequeno avião, aterrar na pista afim de ser feita a minha evacuação, para o hospital do Setor "A". Fui conduzido numa auto maca, até ao avião, em pouco tempo eu já sentia um ar, um pouco fresco pois estava aterrar no aeroporto, já se encontrava uma ambulância, estacionada à minha espera para me conduzir à urgência. Fui atendido por um médico, Tenente Coronel que de imediato chamou um dos enfermeiros de serviço, me injetou um litro de soro. O médico disse ao enfermeiro que eu estava pronto para o caixote, fiquei com baixa hospitalar dezassete dias levei na totalidade dezassete litros de soro. Foi assim que naquela unidade hospitalar, que eu sentia os helicópteros da força aérea, resfolegante transportando soldados feridos e outros moribundos do campo da batalha. O médico caminhou com os seus elementos de enfermagem até à minha cama, examinou-me e disse que eu já me encontrava, em boa saúde para regressar, ao meu aquartelamento. Ordens do senhor doutor, levantei-me da cama, com um certo agastamento vesti a minha farda, sem mais delongas não disse nada medi a minha estrutura de cima a baixo, de forma quase impercetível, abandonei o hospital, segui para o interior do aquartelamento de Vila Cabral, esperando a saída de uma coluna militar, para me levar de regresso ao inferno do Lunho.
quinta-feira, março 03, 2022
quarta-feira, março 02, 2022
Chegada da Companhia de Artilharia 72 60 ao LUNHO 20 de março 1974:
Aquele inesquecível, dia 19 do mês de Março de 1974: todos nós madrugamos, se calhar não dormimos, convenientemente e, mal despontou o sol, que no Lunho nascia bem cedo, fomos saindo da caserna com a certeza mais que certa, de que a fuga daquele purgatório estava por dias. Nunca por então tantas sentinelas, mirando a picada. todos olhávamos para o horizonte, com impaciência, perscrutando a celeste direção, que sabíamos ser aquela de onde surgiria uma coluna de viaturas, carregando aqueles, que tomariam de então os nossos lugares naquela terra esquecidas do fim do mundo. Foi uma longa espera, que a impaciência se encarregou, de prolongar ainda mais. Ansiedade foi crescendo à medida que o tempo passava e a coluna tardava. Para o grande momento, até que soou o primeiro alarme. O ponto negro, já visível no horizonte, foi agradecendo à medida, até se tornar bem nítida a silhueta familiar da coluna que chegou no meio de uma nuvem de pó, evoluindo até se imobilizar, no aquartelamento do Lunho. Um burburinho expectante, fazia descer aqueles checas acabados de chegar, das viaturas, uma gritaria esfusiante, tomou ao mesmo tempo que cada um se esforçava, por parecer, o mais alucinado possível num misto de loucura e contentamento. alguns com ar mais infeliz do mundo, olhando em volta sem saber para onde se dirigir, iam sendo guiados quase empurrados, bombardeados por explicações atabalhoadas vindas de todo o lado. toda a gente ia contando, indicando, descrevendo, pintando, o que era as matas do Lunho onde ficava a Miandica, e as tarefas mais difíceis que iam ter de enfrentar.
terça-feira, março 01, 2022
Enfermaria do LUNHO:
Enfermaria do Lunho: 1972 a 1974:
sábado, fevereiro 26, 2022
Miandica terra do outro mundo 1973:
sexta-feira, fevereiro 25, 2022
Aqui está o nosso «1.º Cabo Cripto» José Xavier com o saco do correio»
COMPANHIA DE CAÇADORES 41 41 OS GAVIÕES A CAMINHO DO LUNHO:
quinta-feira, fevereiro 24, 2022
Eu Bernardino Peixoto fui preso num subterrâneo no Lunho Moçambique.
O rigoroso regulamento da disciplina militar, de que se dizia ser incomparável alimentava boa parte do anedotário, de caserna. Entenda-se seria de todo desnecessário e isso porque, bastaria entender as regras principais, cuidado com o que dizes" vê lá o que fazes" o que significava, que até isso porque para não cair nas suas malhas. Naquele tempo, dormir era razoável a probabilidade de se infringir um qualquer dos seus inúmeros, artigos. No Lunho não havia cadeia, as penas de prisão eram compridas, no fundo de um subterrâneo tenho memória de ter sido enclausurado, cujo o meu Comandante de Companhia António Cardoso, exigente e imperativo não admitia desculpas. o local escolhido ter sido logo ali naquele subterrâneo onde um animal de quatro patas acabava de dar à luz onze cachorros, fui preso sem camisa, foi-me retirada a minha arma, meus cinturões, enfim o cubículo era bastante apertado, que tive de tentar dormir uma soneca em condições desumanas. Um refilão preguiçoso, um negro de nome Agostinho, exagerou pois se encontrava embriagado, ultrapassou o desculpável e foi além da capacidade, de tolerância aplicada ainda com algumas atenuantes, infernizou a minha paciência, eu já me encontrava visivelmente agastado, com os palavrões, saquei do meu cinturão, o atingi numa das suas orelhas, de imediato foi socorrido pelos seus camaradas, até à enfermaria. O meu Comandante acompanhado pelo segundo, Aníbal Curto Ribeiro, e o furriel Afonso em pouco tempo entravam na caserna, ao ver a situação me deu voz de prisão, fui conduzido ao subterrâneo, pelo furriel Afonso que lamentou o procedimento do meu comandante. Estar preso implicou não ser escalado, para o respetivo posto de sentinela. Eu achando que tudo aquilo foi um abuso de poder visivelmente fiquei agastado, com o suposto castigo. para completar o quadro!!..O negro transferia-se à noite para a sua cama, na caserna, depois de ter alta da enfermaria!!!. Feliz da vida e apostado de ter cumprido o castigo, dentro do subterrâneo que me foi imposto. Creio que nunca fiz inimigos, mas também não consigo identificar os amigos, o Agostinho era um negro quezilento, quando se encontrava com umas cervejas a mais, situação algo frequente, a cerveja era barata, e havia quantidades generosas, que apenas se manifestava, quando toldado, por cervejas um pouco em quantidade. Claro que nestas coisas, à sempre exceções. A bebida queimando o seu fraco senso, fazia às avessas daí o resultado, de ameaças, o único que sofreu na pele fui eu. O castigo da providência senti de forma dolorosa.
Texto de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72
terça-feira, fevereiro 22, 2022
MADRINHAS DE GUERRA:
As madrinhas de «guerra» eram moças solteiras sendo muitas vezes os respetivos endereços, trocados por nós militares. Muitas vezes as pessoas, escreviam sem se conhecer pessoalmente mas alguns desses casos, resultaram em casamento. Ao fim de algumas cartas e aerogramas trocados, as madrinhas" enviavam fotos de corpo inteiro, para mostrarem o que valiam, vestiam a sua melhor roupa faziam a sua melhor pose para se mostrarem. Os "aerogramas" disponibilizados pelo Movimento Nacional Feminino, não precisava de selo era transportado gratuitamente, pelos aviões da TAP. O saco do correio, era transportado para o Niassa, e depois para o Lunho, duas vezes por semana, num pequeno avião que os velhinhos batizaram com o nome de "Pêga" Sempre no momento da distribuição do correio, aguardado com particularidade por todos nós, guerreiros!. Eu tinha umas cinco ou seis "madrinhas" recebia uns vinte aerogramas por mês, com algumas cartas à mistura. De que eu falava? falava de tudo era uma espécie de eu despejar o caixote. Falava de ser um herói, falava de solidão, falava de medo, e falava de malandrices.
Crónica de Bernardino Peixoto Soldado Corneteiro 017516/72:
segunda-feira, fevereiro 21, 2022
Esposas Namoradas e Madrinhas de Guerra
Marta Martins Silva escritora e autora deste livro cartas de Amor e de Dor, Esta simpática senhora como jornalista e escritora, resolveu escrever as nossas histórias dos antigos combatentes do Ultramar, muitos lhe enviaram seus textos, subscritos a esta senhora fazer a revisão dos mesmos. Os antigos combatentes da guerra do Ultramar, em forma de um diário pessoal onde as nossas escritas delirantes, prometem desafiar os leitores, a descobrir qual a realidade do mundo, em que nós vivemos e como foi o desenvolvimento das nossas experiências traumáticas, em terras de África quando ainda eramos muito jovens. Parabéns senhora jornalista e escritora, Marta Martins da Silva todos nós combatentes da guerra do Ultramar, lhe agradecemos de colocar cá fora as nossas histórias que já se encontravam guardadas no baú das recordações. o que foi o nosso sofrimento em tempos de guerra em plena juventude.
domingo, fevereiro 20, 2022
quinta-feira, fevereiro 17, 2022
COMPANHIA DE CAÇADORES 41 41 OS GAVIÕES:
terça-feira, fevereiro 08, 2022
segunda-feira, janeiro 24, 2022
sexta-feira, janeiro 21, 2022
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Fui apurado para todo o serviço militar obrigatório, a partir desse dia estava às ordens do exército de Portugal, os dias iam passando, um...
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Povoação de Malema Moçambique O ADEUS AO LUNHO NO DIA 23 DE MARÇO DE 1974!!! E O REGRESSO À CIDADE: O facto de não reter pormenores, convenc...




