sábado, fevereiro 15, 2025

O retiro dos desenfiados:


 Retiro dos desenfiados, para aqueles que desconheciam estas coisas, direi que se tratava da enfermaria da Companhia. O nome que alguém lhe deu, estava muito bem apropriado. Ora vejamos: Todo aquele que era sorna, desenfiado reguila, e se queria safar-se da operação, patrulha, picagem, capinagem e trabalhos diversos, serviam-se de doenças simuladas e pretendidas, baixando à enfermaria (RETIRO dos Desenfiados,) para assim se livrarem. Na véspera e uma operação, a enfermaria era visitada por todos os componentes da mesma. Claro que se o enfermeiro tivesse os olhos,  tapados e fosse mais filantrópico, a operação teria de ser anulada por falta de pessoal. Contudo sempre havia alguns que conseguiam simular, melhor uma grande dor de estômago (ulcera possível não podendo comer ração de combate) outros bicos de papagaio, ou apêndice. Inventavam doenças, que nem chegavam  a existir no catálogo das moléstias.  Como o centro de saúde não dispunha de material suficiente, para bem detetar doenças pretendidas, muitas vezes o agente chefe de saúde aqui dentro, é levado embora com um pé atrás.  Acontecia ainda que o responsável sanitário também tinha os seus amigos aquém fazia um  jeito e os livrava da operação. Era de esperar pois estamos num país, onde as cunhas reinavam desde  o tempo de D. Afonso Henriques primeiro rei luxo. Sim este posto de socorros era uma miséria. Havia um soldado que precisava de lhe ser injetado qualquer medicamento, mas tal não se fazia porque, uma vez não havia seringa, outras vezes faltava o álcool etc. Andava por ai tudo cheio de micose, doença que só existia nos soldados de Portugal e no Ultramar. Em parte esta epidemia que afetava o derme testicular, era benéfica para aqueles que nada tinha que fazer. Mas deixemo-nos de graças. Eu direi que não era nada agradável ter de andar com toda aquela comichão no órgão genital, riqueza mais nobre que o homem poderá possuir. Não era isto que queria dizer, mas a gente começa a dissertar, e por vezes chega mesmo a dizer aquilo que nem tinha em mente ou uma série de asneiras. Sucedia que as pomadas, os pós, os líquidos antimicóticos não existiam para sarar esta enfermidade que era geral. Continuando; o pessoal sujeito a alimentação como aquela que se verificava, tinha uma necessidade incrível de vitaminas. Também estas faltavam. De quando em quando, apareciam uns concentrados de vitaminas em embalagens, mas a quantidade era pouca e só eram distribuídas aos mais necessitados ou amigos. Com toda esta falta de medicamentos tornava-se fácil a administração dos mesmos aos diversos enfermos. Como era óbvio, o doente só não pateava porque não era tão doente, nem tão débil como ele julgava. Contudo não estávamos mal servidos e doentes para tratar não faltavam. Os membros da comissão veterinária eram todos do sexo masculino. Conforme os doentes assim o tratamento o diferia. Um soldado podia esperar mesmo refilando; o furriel era atendido sem refilar; o alferes era atendido sem refilar; O Senhor Capitão era atendido de bata branca: e por último o primeiro Sargento era tratado no seu quarto de bata e com todos os condicionalismos indispensáveis. Contudo eramos todos de carne e osso e as divisas ou galões pouco ou nada nos deveria   dizer. Sentia necessidade de escrever diariamente, mas que tinha eu para dizer? As noticias que existiam, muitas vezes eram cortadas pela nossa censura pessoal . Não poderia relatar às pessoas mais queridas, mais ligadas, mais íntimas que tinha detetado na picada um engenho explosivo que batizaram com o nome de mina. Este engenho se não fosse detetado podia fazer ir pelos ares o pessoal e   podia dar origem aprendizagem de paraquedismo. Esta zona era rica, pois minas era maningue. Havia quem lhe chama-se e bem Estado de Minas Gerais. Contudo o buraco do Lunho era habitado, respirava-se ar puro, calma, alma, paz, tranquilidade, e havia a esperança de voltar ao bom agradável à civilização, à vida.        

Niassa Lunho Moçambique 1972 a 1974

Guerra do Ultramar 1972.

Cerimónia do Hastear da Bandeira Nacional.

Toques Militares

Ordem Unida - Toques Militares - Portugal

Encantos de Moçambique - Portuguese song in the colonial war 【葡萄牙】莫桑比克的魅...

domingo, fevereiro 09, 2025

A despedida do Lunho Moçambique. março 23


A companhia de Caçadores 41 41 os Gaviões
A estafa daquele quase interminável  viagem, que nos troche dos confins das terras do outro mundo, até às delicias da civilização deixou as suas marcas. Meio  atordoado e fisicamente combalido, nem me dei conta no imediato nas cateterísticas do lugar onde fomos largados. Em boa verdade nem pensei nisso, pelo menos em que me recorde. Ao abandonar a viatura e percorridos vários quilómetros com escassas paragens pelo caminho, apenas ansiava por esticar as pernas e procurar a caserna na mira de um duche, frio que me refresca-se os miolos retira-se os músculos entorpecidos, da sua letargia, e me libertar daquela sensação de sujidade, pegajosa acumulada pelos longos dias de viagem. Descobrir Malema Entre os Rios, foi coisa que no momento não me preocupou, e nem uma pontinha de curiosidade me levou a pensar no assunto. Lancei-me à cata das minhas tralhas, algures perdidas no meio das demais e olhei à volta à procura do quartel. Não obstante o reboliço da chegada, deu para perceber que nada à volta se parecia, com as instalações militares. Considerando as casas e palhotas, circundantes assumi que estávamos no meio da povoação, uma localidade um pequeno lugarejo como tantos outros na então África Portuguesa nascera ao sabor das cruas exigências de ocupação secular daquele imenso território. O quartel esse estaria por ali, Provavelmente deduzi para além das traseiras do edifício postado à nossa frente. Mas não era assim, dali a um nada descobria que as casernas, estavam localizadas dentro do edifício bem comprido, já nos limites do casario principal, mas visivelmente não enquadrado, em qualquer perímetro que pudesse que pudesse ser considerado quartel ou similar. É que nem sequer tinha aspeto que se parecesse com o que quer que fosse, militar. Não se viam muros, guarnições, postos de sentinela, ou outros sinais que fosse lembrar preocupações, de defesa apenas existia a porta de armas. Embora fosse suposto estarmos em guerra, não se viam sinais disso. Abandonamos a rua principal, exprimida entre uma correnteza de casas, metemos por um caminho em terra batida, com o piso irregular, que nos levava ao edifício, que a partir de então passou acomodar a Companhia de Caçadores 41 41 os Gaviões, revelou-se uma agradável surpresa. Casernas em chapas de zinco mas espaçosas, as camas era iguais às do Lunho mas assumi desde logo que estariam limpas, sem percevejos embora a rede mosquiteira, garantiam que que os mosquitos, não eram diferentes, pensei eu que provavelmente condicionado pela recordação, da precariedade da minha caserna no Lunho. Despi o camuflado, deixei cair por ali já fragilizado, e coçado pelo uso intenso, de dezassete longos meses de mato, pareceu ter enrijado. Ganhou textura em consequência absorção de pó amassado com o suor da viagem. Em seguida peguei na toalha lancei mão à gilete de barbear e do sabonete, dirigi-me às instalações sanitárias localizada um pouco à frente da cantina, passei várias vezes e perdi a noção do tempo, saboreando a frescura revigorante do jorro forte do duche, até sentir as pontas dos dedos enrogados.  Postei-me em frente ao espelho, e desfiz a barba de alguns dias com cuidado num escanhoar meticuloso, e regressei à caserna. Estiquei-me sobre a cama, deixando que uma doce incandescência fosse tomando conta do meu corpo cansado. Não sei quanto temo ali fiquei, e não tive a consciência de ter adormecido. Se calhar a fome desertou do doce torpor. Não! não pensei deve ser o relógio biológico, anunciar a hora da janta. não era meu hábito deixar-me  guiar pelas armadilhas materiais, do subconsciente. levantei-me vesti a minha roupa civil, calcei os sapatos pretos, procurei companhia, fomos em paço indolente caminhamos em direção ao clube ferroviário de Malema, o mais evidente da civilização. Uma ampla sala de jantar, com um balcão tipo snack-bar com bancos altos em redor, por de trás do mesmo se encontrava o dono o indiano Fernandes, a servir o belo manjar com simpatia. Tirar a barriga da miséria era coisa que ia começar já, descontando a incompreensível falta de memória, já queimada pelo tempo apostaria que me lambuzei, com um bom bife com batatas fritas e um ovo a cavalo acompanhado com uma bazuca de cerveja laurentina bem fresquinha.                                           
 

Niassa Ocidental Lunho Moçambique.1972.




 

Daniel Roxo