A estafa daquele quase interminável viagem, que nos troche dos confins das terras do outro mundo, até às delicias da civilização deixou as suas marcas. Meio atordoado e fisicamente combalido, nem me dei conta no imediato nas cateterísticas do lugar onde fomos largados. Em boa verdade nem pensei nisso, pelo menos em que me recorde. Ao abandonar a viatura e percorridos vários quilómetros com escassas paragens pelo caminho, apenas ansiava por esticar as pernas e procurar a caserna na mira de um duche, frio que me refresca-se os miolos retira-se os músculos entorpecidos, da sua letargia, e me libertar daquela sensação de sujidade, pegajosa acumulada pelos longos dias de viagem. Descobrir Malema Entre os Rios, foi coisa que no momento não me preocupou, e nem uma pontinha de curiosidade me levou a pensar no assunto. Lancei-me à cata das minhas tralhas, algures perdidas no meio das demais e olhei à volta à procura do quartel. Não obstante o reboliço da chegada, deu para perceber que nada à volta se parecia, com as instalações militares. Considerando as casas e palhotas, circundantes assumi que estávamos no meio da povoação, uma localidade um pequeno lugarejo como tantos outros na então África Portuguesa nascera ao sabor das cruas exigências de ocupação secular daquele imenso território. O quartel esse estaria por ali, Provavelmente deduzi para além das traseiras do edifício postado à nossa frente. Mas não era assim, dali a um nada descobria que as casernas, estavam localizadas dentro do edifício bem comprido, já nos limites do casario principal, mas visivelmente não enquadrado, em qualquer perímetro que pudesse que pudesse ser considerado quartel ou similar. É que nem sequer tinha aspeto que se parecesse com o que quer que fosse, militar. Não se viam muros, guarnições, postos de sentinela, ou outros sinais que fosse lembrar preocupações, de defesa apenas existia a porta de armas. Embora fosse suposto estarmos em guerra, não se viam sinais disso. Abandonamos a rua principal, exprimida entre uma correnteza de casas, metemos por um caminho em terra batida, com o piso irregular, que nos levava ao edifício, que a partir de então passou acomodar a Companhia de Caçadores 41 41 os Gaviões, revelou-se uma agradável surpresa. Casernas em chapas de zinco mas espaçosas, as camas era iguais às do Lunho mas assumi desde logo que estariam limpas, sem percevejos embora a rede mosquiteira, garantiam que que os mosquitos, não eram diferentes, pensei eu que provavelmente condicionado pela recordação, da precariedade da minha caserna no Lunho. Despi o camuflado, deixei cair por ali já fragilizado, e coçado pelo uso intenso, de dezassete longos meses de mato, pareceu ter enrijado. Ganhou textura em consequência absorção de pó amassado com o suor da viagem. Em seguida peguei na toalha lancei mão à gilete de barbear e do sabonete, dirigi-me às instalações sanitárias localizada um pouco à frente da cantina, passei várias vezes e perdi a noção do tempo, saboreando a frescura revigorante do jorro forte do duche, até sentir as pontas dos dedos enrogados. Postei-me em frente ao espelho, e desfiz a barba de alguns dias com cuidado num escanhoar meticuloso, e regressei à caserna. Estiquei-me sobre a cama, deixando que uma doce incandescência fosse tomando conta do meu corpo cansado. Não sei quanto temo ali fiquei, e não tive a consciência de ter adormecido. Se calhar a fome desertou do doce torpor. Não! não pensei deve ser o relógio biológico, anunciar a hora da janta. não era meu hábito deixar-me guiar pelas armadilhas materiais, do subconsciente. levantei-me vesti a minha roupa civil, calcei os sapatos pretos, procurei companhia, fomos em paço indolente caminhamos em direção ao clube ferroviário de Malema, o mais evidente da civilização. Uma ampla sala de jantar, com um balcão tipo snack-bar com bancos altos em redor, por de trás do mesmo se encontrava o dono o indiano Fernandes, a servir o belo manjar com simpatia. Tirar a barriga da miséria era coisa que ia começar já, descontando a incompreensível falta de memória, já queimada pelo tempo apostaria que me lambuzei, com um bom bife com batatas fritas e um ovo a cavalo acompanhado com uma bazuca de cerveja laurentina bem fresquinha.
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