sexta-feira, dezembro 27, 2024

Padaria do Lunho 1972 a 1974


 Na padaria do Lunho a forma, de hábitos  gastronómicos alimentares, de qualquer ser humano  independentemente, da raça ou religião, é o "pão" mais propriamente apelidado na tropa pelo casqueiro. Pão tinha que existir, seja lá onde for e no Lunho não era exceção! Correndo o risco de estar a ser atraiçoado, pela memória, penso que a equipe de padeiros da companhia era constituída por um 1.º cabo de nome Joaquim Prazeres Carvalho, tinha como auxiliar  o soldado corneteiro Adão de Sousa Barbosa com o apelido de "Banharia", Os dois com ajuda de uns e outros tinha a missão garantir casqueiro fresco, bem cedo para ser distribuído ao pequeno almoço havendo ter que cozer outra fornada para o almoço, e jantar.        

segunda-feira, dezembro 02, 2024

Lunho Moçambique 1972 a 1974.

Tempestade no mato: janeiro do ano 1973.
Em plena operação no mato, a noite parecia calma, o sono tínhamos vencido a todos por volta das sete, oito horas. Apenas dois soldados se mantinham acordados, fazendo os habituais turnos de vigilância, resistindo como podiam à vontade de encostar a arma e fechar os olhos até que rompessem, os primeiros raios de sol. Caem alguns pingos de água, antecedidos de um leve murmúrio de vento que agita os ramos das árvores onde nos abrigamos. O céu estrelado minutos antes, tornou-se escuro apagando de súbito todo aquele cintilar de milhares de pontos brilhantes que nos serviam, de tecto e ao mesmo tempo, de uma espécie de jogo de embalar com que nos entretínhamos, a esperar o sono, assistindo às estrelas cadentes riscando o céu como balas que nos passavam ao lado naquele jogo de fantasia nas noites de relento. O céu no mato tem outro brilho, outro encanto. Tudo parecia mais vivo e fulgurante. A chuva foi engrossando tornando-se diluviana em poucos minutos. O meio sossego de mais uma pernoita, a céu aberto foi abruptamente interrompido, obrigando a rearranjos de acomodação por ma outra chuvada, mas de impropérios que amaldiçoavam tudo o que vinha à cabeça e que se nos afiguravam apropriados no aliviar da tormenta, a maior parte das vezes buscar apenas uma outra forma de não naufragar nas torrente se água que o ser da natureza nos enviava. Um clarão distante prenuncia um trovão, que segundos depois ecoava longínquo, sinal de que a tempestade maior há-de passar ao largo. O vento aumenta fustigando-nos com ondas de chuva que varrem o abrigo precário que nos proporcionam as árvores, destroçando algumas tendas erguidas para abrigo para algumas horas. Aquele trovoão distante foi o único que se ouviu num espaço de tempo longo e suficiente para que se admitisse que ficaríamos pela chuva forte que caía e mesmo essa deveria de ser breve. Sem que nada o fizesse prever, um relâmpago fortíssimo iluminou de repente as redondezas como um flash fotográfico, tornando o dia claro  aquele sitio. O suficiente para tornar possível distinguir os vultos escuros dos ponchos dos soldados que se abrigavam como podiam, fazendo lembrar um cacho de cogumelos nascidos unto ao tronco das árvores em busca de frescura da sombra. Um trovoão estourou um ou dois segundos depois, sem o ribombar habitual dos ecos que a distância a que se encontra a tempestade proporciona. Ainda não estávamos recompostos daquele estrondo medonho que rasgava o silêncio da noite, deixando-nos vulneráveis como grãos de areia no deserto levados por uma enxurrada inesperada,  e já outro ainda mais medonho rasgava de alto a baixo uma árvore secular, a menos de trezentos metros de distância. Durante uma hora aquela tempestade pairou sobre nós. O tempo agora era de esperar pela manhã que nos traria os raios de sol retemperadores, secando-nos a farda em pouco tempo. Um sinal da cruz feito à socapa, completava o ofertório e sinalizava o fim da liquidação do beneficio colhido enquanto outros sacudindo o ponche e a roupa ou descalçavam as botas procurando que o sol, que se adivinhava secasse um pouco as meias e a farda que de uma forma ou de outra estavam encharcadas da chuva. 
Texto de Bernardino Peixoto antigo Combatente da guerra do Ultramar Moçambique.                                                              

Daniel Roxo