quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

BERNARDINO PEIXOTO:

AS MINHAS MENÓRIAS DE UMA GUERRILHA NO INTERIOR
DE AFRICA EM MOÇAMBIQUE 19 DE NOVEMBRO DE
(1972 A 23 DE MARÇO DE 1974)


4 comentários:

  1. Dia 29 de Janeiro e 15 de Fevereiro de 1973
    43 anos passados!!!!)
    Passaram-se muitos anos a recordação daqueles dias 29 de Janeiro e 15 de Fevereiro de 1973 estiveram sempre presentes embora algo difusa em alguns pormenores que o tempo levou consigo como recordação.
    Este foi um tempo estacionário sem horizontes vivido dia após dia pela incerteza e a ansiedade resultante da imprevisibilidade das diversas situações em ações de guerrilha no interior de Africa. Num aquartelamento improvisado onde tudo era rudimentar onde quase tudo faltava e onde tudo teria de ser feito melhorando sucessivamente as instalações tendo em vista a segurança daquele reduto para uma estadia que poderia ser prolongada e onde para além de tudo teria de se manter uma atividade operacional regular. Recordo da primeira vez que vi aquele local! olhei as viaturas carregadas de militares novinhos em folha acabados de chegar da Metrópole era a C.CAÇ.4141 os gaviões que iam povoar as densas e muito perigosas matas do "LUNHO" deslumbrados por se sentirem envolvidos pela natureza Africana. Os nossos rostos deixaram transparecer um misto de medo e receio do desconhecido.
    Concentrados na observação do meio envolvente alimentando o nosso imaginário onde tudo seria possível desde os ataques do inimigo até às investidas das feras camufladas no meio da vegetação ao longo das picadas que nos conduziam aquele local o "LUNHO". A coluna militar aproximava-se lentamente e foi então que eu vislumbrei no meio da confusão das viaturas e do pó que me envolvia aquela clareira rodeada de vegetação com uma construção rudimentar em chapas de zinco e outras em construção artesanal em blocos de cimento e tijolos dentro de um perímetro demarcado por uma vedação com três arames farpados de fácil acesso a qualquer intruso.....
    Naquele momento tive uma sensação de apatia total apeteceu-me retroceder mas nesse desalento algo renasceu em mim que me impediu a enfrentar esta prova de fogo como um desafio às minhas capacidades físicas e intelectuais.

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  2. Desde o momento da mobilização sempre julguei estar preparado psicologicamente e operacionalmente para as mais diversas situações não só pela formação e preparação recebida como também pelo empenhamento que assumi ser fundamental para enfrentar as dificuldades num meio hostil e desconhecido. Muito antes de ser chamado a cumprir o serviço militar obrigatório tive consciência que iria viver esta guerra por dentro e não através dos jornais. Foi assim que com esta bagagem que entrei na recruta no Regimento de Infantaria N.º13 em Vila Real de Trás os Montes (1.º turno) tendo escolhido a especialidade de corneteiro no Regimento de Infantaria N.º 2 em Abrantes onde fui mobilizado para Moçambique. Com o decorrer do tempo aquele local o "LUNHO" passou a ser o centro do mundo e a casa de todos aqueles que durante 17 longos meses aguentaram a incerteza do dia seguinte a impossibilidade de pensar o futuro. Transformei as tristezas em alegrias no meio da amizade e camaradagem. Ali festejei aniversários natais de toda a família. Recordo ainda aquelas noites de isolamento total com uma orquestra de ruídos e sonorização de intensidades diferentes que me obrigava a dormir com um olho aberto e a minha arma G.3 encostada ao meu corpo.
    Não era fácil adormecer e muitas vezes ficava a usufruir da escuridão da noite com os olhos fechados durante algum tempo e ao abri-los ficar com a sensação de vertigem daquele céu cravado de estrelas que se tornava ainda mais luminoso e parecia desabar sobre todos nós. O andamento cadenciado o peso da arma G.3 macerando no meu ombro o cansaço a transpiração a despontar no meu corpo à medida que avançava o tempo a caminho de uma emboscada sempre prevista mas nunca desejada. Na manhã do terceiro dia levantei-me antes do romper do sol ingeri alguns alimentos e entretanto foram feitas algumas recomendações aos soldados para que fossem atentos se possível em silêncio mantendo as distâncias tendo sido alertados para um possível contacto com elementos da guerrilha dadas as situações anteriormente verificadas. Iniciamos o regresso ao aquartelamento do "LUNHO" sentia ao caminhar a humidade das ervas e o capim que persistentemente roçavam pelas minhas pernas encharcando as calças e botas que rapidamente secavam aos primeiros raios de sol que começava a despontar a vegetação.
    Nos dias anteriores a progressão pelo mato ao longo dos trilhos decorreu normalmente apesar da perseguição do inimigo e um grande ataque de abelhas e do cansaço que se fazia sentir não só pelas distâncias já percorridas através de serras e vales com a arma G.3 e equipamento como também pelo clima quente e muito húmido com um aroma "acre" e doce que exalava da vegetação. Vigilantes caminhava-mos carregando cada um dentro de si alimentando o seu pensamento com ausências sempre presente de pais irmãos mulher filhos namorada e amigos. Outros trocavam as suas histórias outros havia que falavam de futebol e também do tempo que teimava em não passar. A operação tinha terminado chegamos ao aquartelamento na hora da chegada parecia mais um grande hotel que um bairro de latas os heróis dos arame farpado nos receberam com um sorriso e só não deixavam verter lágrimas porque eram homens estas partidas eram cenas que comoviam muita gente.

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  3. Também recordo o dia 15 de Fevereiro de 1973 quando estive de serviço (vigia) no posto de sentinela junto ao depósito de géneros quando fui surpreendido ao ver a caminhar pela pista de aviação um elemento da guerrilha da Frelimo com a sua arma acima da nuca. Corri com a minha arma G.3 em posição de rajada em direção ao guerrilheiro que vinha em paz para se entregar no nosso aquartelamento do "LUNHO". Esse guerrilheiro além da sua arma que não chegou a utilizar trazia consigo uma saca em pano com uns miseráveis greiros de arroz e uma colher de pau. Fui entregar ao comandante da companhia que o enviou para o Setor "A" Vila Cabral. Dias passados esse guerrilheiro voltou ao "LUNHO" para sair para o mato com os meus camaradas. Esse homem confidenciou que esteve deitado no meio do capim ao fundo da pista de aviação com a sua arma apontada na minha direção. Se o rebelde prime o gatilho da sua arma era mais um soldado do Continente de Portugal que tombava na flor da idade ao serviço da pátria. O nome desse ser humano apenas se chamava "SAMUEL". Fiz uma reflecção a mim próprio se tudo tivesse acontecido não estaria aqui para contar esta triste história.

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  4. gostei de ler a tua história amigo Bernardino Peixoto , muito bem composta .
    as nossas histórias sobre a guerra só nós sabemos dar o valor real do que passamos por lá .

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